Carta a Werther

"Eis-me aqui, sob a luz de uma lamparina já que nem a luz da lua pode iluminar mais teu juízo. Teus ralhares e lamentações por Carlota são em demasia... Preocupe-me se teu espírito perdido possa um dia encontrar-se na ponta de uma adaga.

Amas Carlota, eu o sei. Por vezes escreveras teu amor por tal santa de boas maneiras, tuas preocupações com seu bem-estar e quão arredio te sentes ao vê-la com o Alberto. Porém, escreves-me sempre pois sabes que sou sensato e de bom coração para conseguir aconselhar-te em horas noturnas de teu espírito. Portanto, dou-te duas opções, caro amigo, aceita-as ou sofras como estás, tu, o ser mais bem-quisto que esta sociedade já teve prazer de conhecer. Primeiro: enfrente o destino que te vira as costas, uma hora, o destino se afeiçoará de tua insistência e te dará de bom grado coisas até melhores que as que pede. Segundo: abandone tudo. Viva para o trabalho e o trabalho será tua esposa, mãe e filhos (este conselho é o conselho de tua adorável mãe).

Contudo, sofro ao saber que sofres. Já sofri muito e tu me perguntas sempre como me fiz rocha, responder-te-ei: a natureza, caro amigo. Recolhi-me para os vales que tanto amas e não só os observei, como fiz-me deles para ser quem sou. Agora, não sou mais Guilherme, mas sou o rio fervilhado de peixes que corre sobre o vale, sou a folha que cai durante o outono e faz-se adubo, sou o pássaro que canta ao raiar o dia e etecéteras. Tu me entendes pois observas os vales e montes, andas por tais sem rumo e amas estar ali. Faça-se disso: sê natureza e entendas que o sofrimento é o rio que passa entre pedras: haverão muitas para jogar-te e machucar-te, mas passará, amigo meu, passará. Basta ter paciência..."

Ana Luiza Pereira
Baseado no livro Os sofrimentos do jovem Werther de Goethe

Carta à GT

"Querida Gramática,

     Gostaria de saber como vão tuas mesóclises vaiadas pelo povo e louvadas pelo governo. E tua regência? Não achas que está na hora de mudar a regência que há séculos não funciona mais?
    Até os pronomes que te descrevem já se modernizaram e tu não. Dás exemplos de Camões e Machado, mas Camões não nasceu nestas terras e Machado era mulato que não frequentou escolas, apenas ouviu as aulas pela janela quando criança. Valorizas a língua dos brancos colonizadores e, às vezes, usas de exemplos belíssimos e poéticos de gente desta terra para dizer o que não se deve fazer.
      Por que, Gramática? Valorizas a tradição de um homem colonizador, sendo que o povo que as reges é miscigenado... Por que não te renovas? És contraditória em tua própria nomenclatura e usas de páginas e páginas com listas de exceções e exemplos e, ainda assim, prezas a coerência e a coesão. Já pensaste que as exceções são o uso comum e suas regras é que, de fato, são as exceções? Quem, em sã consciência, na língua falada dirá "Vós estais errado"? Nem a língua do nosso Senado usa esse pronome e essa conjugação.
       Muda, cara Gramática. Aceite do povo que te vê com bons olhos e sê uma ferramenta integradora e não uma dissipação de preconceitos. Digo tais palavras de bom coração, porque não te quero no lixo ou numa inquisição."

Ana Luiza Pereira

Figura

O sol é de ébano
E repartido em dois
Olham para mim
Com carinho

O mar é de palavras
Doces e sussurradas
Num dia hostil
Em um ouvido desesperado

O vento é suave
Um sopre ofegante
de perfumes e suores
Num respirar intenso

O corpo é um quebra-cabeça
Num encaixe perfeito de membros
A imagem do mais puro milagre se forma...
E se renova...

Tudo isso é você
Em perfeita harmonia
Tudo isso somos nós 
Em total sincronia
Um balé de formas bruscas e movimentos suaves
Que proporciona no interior
a paz do espírito que repousa no amor

Ana Luiza Pereira